Há quase 12 anos que sou enfermeira.
12 anos dá que pensar!!
Recuando no tempo lembro-me dos meus primeiros dias de maçarica como se fosse hoje.
Poderia dizer que não me sentia confortável, mas não. Acordava todos os dias com um entusiasmo irrepreensível.
Desde muito cedo que queria trabalhar na área da saúde. Tudo o que se relacionasse com pediatria me fascinava. Talvez porque a minha experiência nas idas à pediatra na minha infância era bastante positiva. A Dra Catarina Catela sempre foi uma querida, tirando as vezes que me fazia palpação abdominal e eu achava que ela me queria matar de cócegas!
Dias houve que sonhava ser a Dra Joana, pediatra de profissão. Durante bastante tempo habituei-me a ouvir os colegas de escola dizerem que eu era um "crânio". Nunca entendi muito bem porque...todos temos um crânio é certo mas...ser o crânio em si, o que é que isso fazia de mim? Anyway, queriam dizer que eu era inteligente e que provavelmente iria chegar longe, com maior distinção do que outros que não o eram (um crânio).
Que raio de raciocínio o deles! Nunca me fez muito sentido aquela definição e aquele rótulo que me puseram. Ficaria na altura mais feliz se me dissessem que eu era "gira", "engraçada", "boazona". Mas não! Nunca me chamaram nada disso e, sinceramente, também não havia razões para isso! Nisso estaríamos de acordo.
O que é certo é que eu gostava de estudar horas sem fim, mas ainda assim, a Medicina ficou-se pelo caminho porque há 16 anos atrás a média não deu para mais.
Com umas peripécias pelo meio lá enveredei pela Enfermagem sem saber muito bem no que me estaria a meter.
Nunca houve dúvidas de qual seria a minha área de eleição. O estágio de obstetrícia no 3º ano passou a correr e mal podia ver a hora de começar a trabalhar com os bebés.
Poderiam perguntar-me "E porque não a pediatria?". Sinceramente também não sei responder a essa questão, mas a ideia de crianças doentes passou a não me agradar. E as crianças olham-nos com a maior sinceridade do mundo, para o bem e para o mal! Não me senti capaz!
Quem me conhece sabe como eu consigo ir da "Joana muito reservada" à "Joana nunca mais se cala"! Antes de escolher Enfermagem, tive sérias dúvidas em seguir Psicologia. Mas há uns anos atrás acreditava que eu não tinha nascido para falar...conversar...interpretar estados de espírito...confortar...ajudar alguém a compreender-se pelo dom da palavra...ou do silêncio. Mal sabia eu que na minha actual profissão teria de ser muitas vezes a psicóloga da família.
Portanto, lá comecei a trabalhar na Obstetrícia em Santarém e, como seria de esperar, ao fim de um tempo precisava de mais. Rapidamente me interessei pela Neonatologia. Cuidar de bebés saudáveis e ajudar as mães a cuidar deles era interessante mas passou a ser uma rotina que muitas vezes me angustiava e deixava um vazio. Ver bebés mais pequenos a precisarem de cuidados especiais, dentro duma incubadora passou a ser um desafio mais interessante. E lá estava eu! Uns dias na Neonatologia, outros na Obstetrícia... E assim foi durante uns 3 ou 4 anos.
Mas a vida muda e "some how" dei comigo em Lisboa, novamente noutra Obstetrícia mas com a oportunidade de ter outra experiência por áreas como gineocologia e cirurgia geral de adultos, uma pitada de Pediatria... Enfim! Um mundo à parte que me fez aprender mais umas quantas doenças e afins.
Mas o bichinho da Neonatologia ficou e a necessidade de procurar outra oportunidade de cuidar destes bebés com necessidades tão especiais voltou. Mas ainda não era desta que os astros se alinhavam para que eu pudesse concretizar essa tão grande vontade.
Uma vez o meu pai perguntou-se se acreditava em Deus. Na altura fiquei perplexa com a pergunta vinda de alguém como ele. Já não recordo como lhe respondi exactamente, mas uma coisa eu sei. Há algo "up there" que regula, controla, manipula...chamem-lhe o que quiserem...o que acontece no universo. Eu gosto de dizer que são os astros, energias, vontades que levam a água ao moinho. Pensamentos positivos e optimistas criam oportunidades com muito mais eficiência! Tenho provas disso!
E, neste momento, dou comigo aqui em Londres, na minha cama, a escrever o que me vem à ideia, rodeada de livros de neonatologia, com o internet explorer aberto aqui http://www.espghan.org/about-espghan/
a ouvir Dead Combo (já que não fui ao NOS Alive em Algés)
https://www.youtube.com/watch?v=FVDjHszbdO8
Isto tudo para vos dizer que um dia a vida dá-nos o que sempre sonhámos. Mas não pensem que é fácil. A Joana que um dia queria ser Pediatra e formou-se Enfermeira, está neste momento a concluir que um dia vai saber coisas que nunca imaginou saber quando trabalhava em Santarém ou Lisboa. Vou dar comigo a saber coisas que se calhar todos os enfermeiros se deviam preocupar em saber. Ou talvez tenha sido só eu que me perdi pelo caminho... Sinto-me "burra"! E já sentia quando decidi sair de Portugal.
Estou a trabalhar num serviço de neonatologia de nível 3, o que significa que além de todas as especificidades de uma neonatologia, esta tem cuidados INTENSIVOS, e melhor ainda...tem a parte cirúrgica. Sim, eu vou cuidar de bebés que além de prematuros, são submetidos a cirurgias, principalmente da área gastrointestinal. Após a minha primeira semana sinto-me um "Sponje Bob"... E talvez por isso tenha passado o sábado inteiro com dor de cabeça. Mas não há-de ser nada. Fui eu que quis vir, e desenganem-se se pensam que vim às escuras. Não! Eu sabia para o que vinha...e mesmo assim, fiquei supreendida!
Já não voltava à escola há anos! Se tinha saudades? Da escola não, mas de aprender sim! E sinto que vou aprender muito!!
Obrigada vida! ;)