Volto a sentir necessidade de falar sobre isso mesmo.
Honestamente, a vontade de escrever sobre o que se vai passando deste lado, muitas vezes esmorece. Seja por andar mais ocupada e distrair-me mais facilmente com outras coisas... Seja porque simplesmente não me apetece escrever... Seja até, e lamento-o cada vez que me passa pela pensamento, o que poderá causar em quem lê, e que julgamentos poderão advir daí. Mas até em relação a isso uma pessoa cresce... Realmente há coisas demasiado intensas para escrever e que poderia não passar para a escrita divulgada... :)
Ora, mas hoje a vontade de partilhar prende-se com aquilo que me fez voar até Londres.
Há um dia ou dois atrás, tive a oportunidade de cuidar do ser mais pequeno que alguma vez me passou pelas mãos. Meio quilo de gente, mais propriamente 608 gramas. Passam-te o turno, dizem-te que a criança tem 15 dias de vida, nasceu com quase 27 semanas (portanto já tem 29 corrigidas). Até aqui tudo bem... Quando te dizem que é IUGR (Intra-uterine growth restrition), já começas a desviar o olhar para o papel onde estará escrito o peso... Mas antes olhas para dentro da incubadora e tentas descobrir aquele pedaço de vida no meio de um ninho feito de lençóis e fraldas de tecido e tubos... Ok, é pequenino... Mas, 600gramas?
Nunca em 13 anos de enfermagem cuidei de tão minúsculo fio de vida. As lágrimas vem-me aos olhos. Não porque estou com receio de não ser capaz de o fazer... Eu acredito em mim! Mas porque quando há uns anos atrás senti que era isto queria fazer na vida, não tinha a real percepção do que seria um bebé tão pequenino. Um bebé cujos braços e pernas conseguem ser do mesmo diâmetro dos meus dedos das mãos. Tudo o que é pézinho, mão, parece ser tão minúsculo que nem o equipamento parece ter tamanho adequado. Foi um grande desafio. Este sim! Não foi a parte de lidar com o suporte ventilatório porque felizmente o "meu" bebé é um guerreiro e portou-se lindamente, muito estável praticamente o tempo todo. Não sei como, quando voltei a dar por mim e descer com os pés à unidade...já não me sentia tão assustada. E pronto, desafio de pequenez ultrapassado!
Quando consegues que 600gramas te imponham este tipo de respeito e ainda nem aos cuidados intensivos chegaste, estás a crescer, sabes que sim!
Obviamente que teres contigo uma equipa que te pergunta quase de hora a hora: "Borgas, are you ok there?" dá-te um suporte emocional brutal!
Que máximo!
ReplyDeleteQue grande que és!
Bj amiga